CD Tributo a Guerra-Peixe

 

 

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Ficha técnica

 

 

resenha


No passado, sem gravações, rádio, televisão ou qualquer meio de se ouvir música senão ao vivo, era comuníssimo o aparecimento de versões diversas de uma mesma obra, para que pudesse ser ouvida com mais facilidade. Versões eram feitas pelo próprio autor ou por outro musicista. Lembramos a versão do próprio Beethoven de sua Segunda Sinfonia para trio (piano, violino e violoncelo) ou a versão de Mendelssohn de sua Sinfonia N°1 (série para grande orquestra) que o autor fez para tocar com seus irmãos, instrumentando para dois pianos, violinos e violoncelo. 

Óperas no século XIX eram editadas com três ou mais orquestrações, dependendo das possibilidades dos teatros, sem citar versões e adaptações de uma ópera inteira para piano só ou para quarteto de cordas, além de trechos que podiam ser tocados até em realejos. 

Assim, Tributo a Guerra-Peixe não será nenhuma “heresia”, nem mesmo para os puristas, posto que, além da qualidade dos arranjos de Staneck (prefiro usar o termo “versão”), existe a possibilidade de se ouvir obras do Mestre, algumas com raras gravações, com nova sonoridade e sem perder absolutamente nada de seu caráter original. 

No repertório camerístico de Guerra-Peixe destaca-se Três Peças, de 1957. Bem amadurecido em sua fase nacionalista, o compositor se inspirou em música de acontecimentos, religiosos ou não, do povo e do folclore do nordeste, que amplamente estudou e vivenciou. Obra originalmente escrita para viola e piano, logo após recebeu versão para violino e para violoncelo. A primeira delas “Galope”, também teve versão para duas flautas e cordas feitas pelo compositor para a Orquestra Armorial. Na “reza-de-defunto” ainda não houve, na falta de documentos, possibilidade de se afirmar se é criação do compositor ou se há criação de elementos populares, principalmente quanto ao início da peça. No “Toque jêje” sim: não só a presença de um ritmo dos “xangôs” pernambucanos, como um chamado “toque cego” e um “recitativo” baseado em um canto que faz o sacerdote em determinados momentos das cerimônias. 

De viola e rabeca, escrita para violino e violão, foi a origem de outra peça famosa do compositor: “Mourão”. Tratando-se de peça muito conhecida, o ouvinte encontrará melodias e ritmos conhecidos da versão orquestral, agora na vestimenta camerística de outros instrumentos. 

Com seu brasileirismo “mariodeandradiano” (ainda bem!), Guerra-Peixe mais uma vez buscou uma roupa para uma forma européia: usou propositalmente o termo “cantoria” em substituição a “cantata”. A primeira “cantoria”: Drummondiana foi composta em 1978 para voz e orquestra sobre textos de Carlos Drummond de Andrade, aliás, um dos preferidos pelo compositor, e logo realizada a versão para voz e piano. Neste Cd estão duas partes: a terceira e a última. Sem o texto, pode-se apreciar o lirismo e, porque não, o romantismo de Guerra-Peixe.  

Em 1949, Guerra-Peixe, abandonando o dodecafonismo, parte para sua segunda fase: nacionalista. A viagem ao Recife, em junho deste ano, é decisiva para a sua mudança estética. No fim do ano, também ocorreu mudança de residência para a mesma cidade. Começam a surgir as novas obras agora oriundas de um profundo estudo da música popular autêntica e do folclore nacional: a Suíte N° 1 para piano é uma delas. “Ponteado” o nome do primeiro movimento, sempre foi usado pelo compositor que o preferia ao termo “ponteio”. Os demais movimentos são já brasileiros, especialmente o “dobrado” onde se percebe a característica das queridas “bandinhas do interior”. Orquestrada no mesmo ano, passou a se chamar “Suíte para pequena orquestra”. Regi a estréia dessa versão 45 anos depois! 

A inúbia do caboclinho, de 1956, que o autor considera uma pela incidental para pequena orquestra com flautim solista, também mereceu em abril de 1971 três versões: piano solo, violino e piano e flauta e piano. Guerra-Peixe evoca o som agudo da “inúbia” (flauta de madeira usada nos grupos de “caboclinhos” de Pernambuco) e a agilidade de seus intérpretes. Trata-se de uma obra que vem interessando cada vez mais os intérpretes e o público. 

Guerra-Peixe entusiasmou-se com o livro “O gato malhado e a andorinha sinhá” de Jorge Amado, outro de seus escritores preferidos, e escreveu uma síntese do romance para servir de guia a uma obra musical. Tal texto foi aprovado pelo escritor. Guerra, então, compôs a peça para piano O gato malhado, em abril de 1982, e realizou a versão orquestral em janeiro seguinte. Presentes à estréia da versão orquestral estavam o escritor e também o ilustrador do livro: Caribe. Jorge, após o concerto, falou à TV Cultura da Bahia emocionado com a música de Guerra-Peixe, que tão bem descreveu em música o drama de seu romance. Regi tal estréia com a Orquestra Sinfônica da Bahia e durante a música o ator Dino Brasil interpretou o texto de Guerra-Peixe. A obra foi dedicada a Valéria Peixoto.  

Quatro coisas: mais um brasileirismo de Guerra que assim preferiu chamar “coisa” em lugar de “bagatela” ou similar. Esta peça foi composta em dezembro de 1987 especialmente para “harmônica de boca” (assim o compositor escreveu em seu catálogo manuscrito) e piano, realizando também a versão para a flauta ou violino. Ganhou também versão para instrumento solista e orquestra de cordas em abril de 1991, cuja estréia também regi com Rildo Hora na harmônica e a Orquestra da Uni-Rio. Escrita nos últimos anos da sua vida, é uma obra que representa realmente a “síntese nacional” da derradeira fase composicional do Mestre. 

Como ex-aluno de Guerra-Peixe, não posso deixar de manifestar minha admiração pelas versões de José Staneck, que compreendeu profundamente o pensamento musical do compositor, parecendo, até mesmo, que estudou instrumentação com ele! 

Ernani Aguiar
da Academia Brasileira de Música