Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

Das Obras

 

Texto avulso pertencente ao acervo particular de Jane Guerra-Peixe


          Depois que o compositor Guerra-Peixe leu e releu os quatro grossos volumes da obra do filósofo húngaro Paul Lukàcs “Estática”, a sua música tomou caminho mais objetivo no sentido de comunicabilidade com o público. É que o filósofo aconselha que a música deva assinalar título ou subtítulo que sugira o mimetismo, isto é, a capacidade de assinalar algo extra-musical a fim de que facilite a compreensão por parte do ouvinte, sem que o valor da obra descambe para o descritivismo inadequado e até inoportuno. Isso ocorreu na década de sessenta; e até hoje assim tem sido. O compositor mais tarde renegou o exagero deste princípio, mas fato é que a idéia permanece como elemento irradiador da comunicabilidade; isto é, da “comunicação”, que é hoje a redação mais habitual. E os exemplos melhores são apontados pelo compositor: Beethoven, Sinfonia nº. 6, “Pastoral”; e Mussorgiski, “Quadros de Uma Exposição”. A não ser nos casos em que o título da música é apenas uma referência formal – acadêmica, mas válida no sentido artístico – as obras de Guerra-Peixe assinalam, a partir da década de sessenta, o título e os subtítulos que têm a ver com a filosofia de Lukàcs, cujos resultados o compositor verifica não só na música folclórica como na de concerto. E essa experimentação, digamos psicológica, não tem sido em vão a partir de sua peça sinfônica “Assimilações”, subvencionada pela OSB, que a executou somente uma vez!

          Roda de amigos trata-se de um conjunto de quatro peças trabalhada neste sentido. O Rabugento, O Teimoso, O Melancólico e O Travesso são movimentos que caracterizam tais propósitos. A obra está gravada em discos fonográficos sob regência de Nelson de Macedo, a quem é dedicada.

          O Pequeno Concerto para piano e orquestra – “Peça radiofônica” escrita para um programa da Rádio Nacional de São Paulo, quando o compositor trabalhava nessa emissora – não é, pelo tratamento, exatamente um concertino. Daí o nome desusual. Conta de três movimentos. Não assinala desenvolvimento temático; mas apresenta uma cadenza, que é típica dos concertos.

          Minúsculas II fazem parte de uma série de seis “Minúsculas” compostas para piano, obra didática para iniciante, mas não de caráter “infantil”. Heitor Alimonda executou as seis Minúsculas em primeira audição num recital a meio de Brahms, Debussy e outros autores qualificados. O compositor transcreveu para cordas, com pequenas alterações, as Minúsculas II. Cada peça desta série conta de uma pequena suíte, que em parte de piano não passa de duas páginas.

          Petrópolis de Minha Infância, composta para uma orquestra de câmara, que teve a sua estréia em Petrópolis sob a regência de Ernani Aguiar. Nascido em Petrópolis, é um tributo do compositor à sua cidade natal. A “Baronesa” Sobe a Serra recorda as máquinas que subiam a serra entre Raiz da Serra e Petrópolis. “Baronesa” foi o apelido que o povo deu à primeira máquina que no Segundo Império subiu a serra. Essa máquina está exposta no Museu Imperial de Petrópolis. Mas o nome se estendeu as todas outras máquinas do mesmo tipo. O compositor viajou muitas vezes nesse trem quando vinha estudar violino no Rio de Janeiro. Crianças na Praça da Liberdade evoca os tempos em que o compositor, criança ainda, brincava com seus amigos (e amigas, naturalmente...) na Praça da Liberdade, que a Prefeitura local mudou o nome para Praça Rui Barbosa mas que o povo prefere continuar, por tradição, usando o antigo nome: Praça da Liberdade. Aqui as crianças brincavam de esconde-esconde, brincavam de roda, de amarelinha, etc., coisas que hoje em dia andam esquecidas, em muitos lugares, por efeito, dos piores, da televisão comercial. Barquinhos do Cremerie recordam o bairro Cremerie, onde havia um bar em que os jovens dançavam músicas da época ao som da pianola. Intermediando os momentos de lazer, os jovens e crianças iam remar na lagoa artificial onde haviam uns barquinhos, distração sadia da população. Muito casamento surgiu do rema-rema bem como inúmeros namoros foram desfeitos pelos eternos ciúmes... Os “Índios” do Morin são o cordão carnavalesco quem em 1976 restava dos inúmeros que existiam no carnaval petropolitano. O “índios” mais tradicionais e os mais persistentes ainda subsistiam na década de setenta no bairro Morin, nome francês de uma província alemã, pois Petrópolis acolheu numerosas famílias alemãs que deram nomes aos bairros conforme as províncias das quais procediam.

          Suíte Sinfônica nº. 2 – Pernambucana. Depois de compor a Suíte Sinfônica nº. 1 – Paulista – Cateretê, Jongo, Recomenda de Almas e Tambu, título sugerido pelo seu amigo folclorista Professor Rossini Tavares de Lima, Guerra-Peixe compôs imediatamente a Suíte Sinfônica nº. 2 – Pernambucana, que consta de quatro movimentos. Maracatu, que assinala a música do tradicional cortejo recifense. Aliás, sobre o assunto o compositor escreveu o livro “Maracatus do Recife”, publicado em 1956, e sobre o assunto ninguém até hoje (1985) conseguiu acrescentar uma só palavra!

          Dança de Cabocolinhos. Chama-se cabocolinhos (e não caboclinhos) o grupo e grupos de carnavalescos que se apresentam vestidos de “índios”. Representam um auto (peça teatral) nos bairros onde estão sediados, mas não no carnaval do centro da cidade. Têm música muito própria que é a um tempo triste e alegre. Talvez os grupos carnavalescos que mais empolgam a população pela beleza e originalidade. Mais que o Maracatu e o Frevo!

          Aboiado é sinônimo de aboio, a melopéia que os vaqueiros cantam para reunir a gadaria dispersa nos grandes campos. O tema desta suíte é folclórico, devidamente alterado para os fins a que se destinou.

          Frevo. Será preciso explicar o que é o Frevo? O Frevo recifense é algo que ninguém consegue imitar, a exemplo dos frevos baianos que são um arremedo sem graça dos verdadeiros frevos... O que predomina na execução do frevo-de-rua, o frevo instrumental e realmente dançante, é o timbre nobre e grave dos trombones. Um requinta, uma clarineta, dois saxofones, dois trompetes e quatro tubas para oito ou dez trombones na década de cinqüenta. E antigamente saiam até vinte e cinco trombones! De modo que frevo sem trombone, sem tonalidade grave e nobre, dá pra desconfiar.

 

          O que se deve considerar nas obras de Guerra-Peixe, a partir de sua estada no Recife, como pesquisador de música folclórica e popular, é um certo eslavismo que caracterizam o seu trabalho. Não há nenhuma influência de compositor eslavo, mas a presença eslava que pôde ser confirmada a partir de suas pesquisas folclóricas no Litoral-Norte de São Paulo, principalmente em Ubatuba. E por que este eslavismo? O assunto precisa ser melhor estudado; e ao que parece os ciganos espanhóis, que vieram como mercenários no exército holandês, talvez expliquem alguma coisa. Mas não tudo. Há elementos religiosos a serem considerados. E aqui a conversa se torna mais difícil.