Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

A provável próxima decadência do frevo

 

Diário da Noite – Recife, 27 de janeiro de 1951.

 

          Os recifenses têm andando contentes com a excursão que um dos seus mais apreciados clubes de frevo vai fazer ao Rio de Janeiro, no próximo carnaval os VASSOURINHAS. Estão contentes por que o frevo vai ser apresentado ao carioca com toda a sua autenticidade, música e coreografia, embora me pareça exagerada a quantidade de músicos reunida no conjunto que acompanhará o querido clube. Mas, este exagero é justificável em grande parte.

          Sem dúvida, o acontecimento será uma das melhores propagandas que se fará do carnaval desta terra. Entretanto, eu conheço o ambiente de música popular [urbana] do Rio de Janeiro. Sei que o sucesso de qualquer música nova e original é motivo para um dilúvio de vulgares imitações. Prova-o, também, o sucesso de qualquer musiqueta estrangeira. E o frevo, não sendo estrangeiro, não deixa de ser uma das ricas modalidades da nossa música popular que o carioca desconhece. Refiro-me, naturalmente, ao autêntico frevo, e não falsas interpretações, que se ouvem através de numerosas gravações de orquestras irresponsáveis, cheias de “variações” à guisa de jazz, que nada têm a ver com a referida dança.

          Uma particularidade que tem feito com que o frevo conserve o seu rigor ritmo, a imponência de sua orquestração e as características de sua forma é o fato de seu compositor ser, não um “orelhudo”, mas, sempre um músico que o imagina numa orquestra e que imediatamente dá forma gráfica musical à sua inspiração – resultando que na composição do frevo a própria instrumentação é também composição. A não ser em raras exceções, o compositor de frevo é o seu orquestrador.

          O mesmo não se dá com as músicas criadas no Rio de Janeiro. Fazendo exceção para José Maria de Abreu, os compositores cariocas não sabem música. Embora entre eles se encontrem alguns talentosíssimos, todos são uns perfeitos analfabetos musicais, oferecendo ao público o que há de piormente concebível e falsificado, impingindo ao povo as monstruosidades que estamos habituados a ouvir. E o público, por força de circunstância tornada moda, acaba aceitando as aberrações divulgadas.

          Ora, estes compositores – que pouco se importam com a boa produção, mas com o sucesso mais ou menos garantido – o que desejam é uma apreciável arrecadação pelas sociedades que defendem os direitos autorais. Procurando o “fácil”, por intermédio do “conhecido”, decalcam suas composições nos horrendos e doentios boleros que o estrangeiro nos envia. Outras vezes nem são decalques, mas cínicas cópias de conhecidas melodias nacionais e estrangeiras.

          Feito o sucesso certo dos VASSOURINHAS, os cariocas tentarão compor frevos...Como não assimilarão bem a sua forma e como o interesse em “amolecer” as suas características vão de encontro à estandartização imposta pelas fábricas gravadoras em disco, o frevo será faiscado, divulgado e tornado, assim, o “modelo” decadente de uma das nossas mais originais e vibrantes manifestações musicais populares. Assim como os cariocas, levados à macaqueação, copiam as banalidades estrangeiras – aceitas pelo público através de um processo econômico que não cabe aqui apreciar – os recifenses serão levados à imitar as corrupções cariocas do frevo, lesados numa concorrência desigual, imposta, ainda, pelo mesmo processo econômico.

          A prova disso já se pode notar no Recife destes últimos tempos, quando tem surgido um regular número de compositores orelhudos, imitadores cariocas, nas mãos dos quais o frevo se tem tornado uma caricatura da marchinha do Sul...

          Infelizmente, a notável tradição do frevo está condenada a desaparecer, quando o carioca começar a produzi-lo e quando os recifenses começarem a dar ouvidos a essas banalidades – como aconteceu no ano passado, com um frevo que nos veio de...São Paulo!!!

          Por isso eu afirmo, sem medo de errar, que o sucesso dos VASSOURINHAS no Rio de Janeiro será o primeiro grande “passo” para a decadência do frevo, tanto musical como coreográfica. E tanto maior o sucesso do clube, maior a provável próxima decadência dessa música maravilhosa.