Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

A execução de pandeiro no Brasil

 

A Gazeta – São Paulo, 9 de abril de 1960.

 

          A execução de pandeiro na música popular do Brasil parece revelar um modo todo particular – a menos que, ocorrendo igual modo noutros países, as informações ainda não tenham chegado ao conhecimento dos estudiosos brasileiros. Do que se tem notícia, tanto em Portugal como na Espanha, na Itália, na Hungria, etc., a execução se verifica assim: o popular segura o instrumento com uma das mãos, e percute com ele na outra. No Brasil a execução se dá inversamente, isto é: seguro o pandeiro com a mão esquerda, ele é então percutido com a outra.

          Os brasileiros seguram o instrumento numa posição um pouco inclinada para o lado esquerdo. Se é natural que por cima da pele passe apenas o polegar da mão esquerda, cumpre notar que por baixo do aro somente os dedos mínimo, anular e médio garantem a sua segurança. Porque no decorrer da execução o indicador exerce função exclusivamente musical, ora abafando a pele, ora deixando-a vibrar, promovendo assim permanente troca de efeitos. Geralmente, a pele vibra solta: ou no segundo tempo exato de compasso 2/4; ou nas colcheias e contratempo; ou ainda, na primeira e quarta semicolcheias de cada tempo, ou seja, de cada grupo de quatro.

          Com o polegar da mão direita, próximo ao aro, são comumente percutidos os momentos rítmicos que justamente concorrem para o efeito de pele solta, antes referido. O lugar onde percute o polegar da mão direita pode variar, bem como nem sempre assim realce o mesmo efeito de pele solta: os dedos indicador, médio e anular percutem conjuntamente em outras regiões da membrana resultando disso outros efeitos: e com a parte traseira da mão, bem próxima ao pulso, é produzido mais outro efeito.

          A posição inclinada do pandeiro não permanece estática, mas o instrumento é ligeiramente articulado em movimentos isócronos para a esquerda e para a direita, movimentos que não só contribuem para facilitar a sua execução como também, servem para realçar os ruídos das soalhas. Ou seja, em determinada posição, o ruído das soalhas se salienta assim que a membrana é percutida. Vale acrescentar que na música popular brasileira as soalhas jamais funcionam sem que tenham participação em exatos esquemas rítmicos.

          O rufado, produzido pelo polegar quando desliza sobre a pele, fazendo vibrar as soalhas [e não precisamente tremular] é outro recurso bastante usual.

          Assim, da execução de numerosíssimos executantes populares, pode-se concluir que são estes os efeitos mais comuns no Brasil: 1) pele solta; 2) pele abafada; 3) dedo polegar próximo ao aro [som cheio]; 4) polegar ou três dedos noutras regiões da membrana; 5) rufado, produzido com o polegar; 6) e o ruído sempre ritmado das soalhas.

          O trêmulo nas soalhas, isto é, sem a execução na pele – aliás, comum na Europa – entre nós tem tido oportunidade apenas excepcionalmente.

          Em geral o aprendizado requer pelo menos seis meses de esforçado treinamento, após o que o popular começa a se identificar melhor com o complexo rítmico do conjunto instrumental e, então, adapta efeitos de acordo com as circunstâncias.

          Mas cada músico popular encontra sua maneira própria de executar pandeiro, resultando disso numerosos detalhes nos modos de serem obtidos os efeitos diversos. Tudo depende da habilidade do executante e da música a que o instrumento acompanha.

          Há executantes de muito talento e que, após alguns anos, alcançam certo virtuosismo e chegam a praticar malabarismos sem conta, especialmente no campo da música urbana. Porém, nos malabarismos jamais perdem o senso rítmico dos movimentos, ainda quando daí resultem exibicionismos extra-musicais.

          Uma hábil notação da música de pandeiro está a desafiar o pesquisador para um estudo paciente, sem o que não se tornará possível escrever “em brasileiro” para este instrumento, cujas possibilidades a mentalidade acadêmica ainda não pode compreender.