Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

A INFLUÊNCIA AFRICANA NA MÚSICA DO BRASIL


 

III Congresso Afro-Brasileiro. Recife, setembro de 1982.

“Os Afro-Brasileiros”. Fundação Joaquim Nabuco. Editora Massangana, 1985.

 

          Como a maioria do público não é musicista, eu me vejo obrigado – para não usar, na medida do possível, termos técnicos – a me reportar à Europa e depois ao Brasil, que é para comparar com o que o negro tem aqui. Porque a gente sabe que uma cor é mais azul ou menos azul em comparação com outra.

          Os gregos, que elevaram a música a um nível muito alto para a sua época, sintetizaram os cantos deles, para efeitos teóricos, em escalas. Essas escalas eram fundamentalmente três: a dórica, a frígia e a lídia. Dórica, por causa de uma divisão do povo grego. A cidade de Esparta, por exemplo, era de origem dórica, assim como outras, espalhadas por quase todas as áreas habitadas pelos gregos. Frígia e lídia, a partir de regiões da Ásia Menor [onde fica a atual Turquia] que nem eram propriamente gregas, mas tinham muitos contatos com a Grécia. Esopo, o fabulista, de acordo com a tradição era de origem frígia, mas isso nada indica sobre a escala de suas fábulas. A essas escalas, a que reduziram suas melodias, eles chamavam modos. Isso simplificava as coisas. Queria dizer: canto à maneira dos dórios, à maneira dos frígios, à maneira dos lídios. Desses três modos, derivam outros três, mais graves: o hipodórico, o hipofrígio e o hipolídio. Portanto, seis modos.

          Acontece que depois, com a dominação romana – os romanos, como se sabe, foram muito influenciados pelos gregos – estas escalas se espalharam por todos os países. Estão na Itália, estão – ainda – na Grécia, estão nos países eslavos, estão na Alemanha [apesar de sua tendência diferente], estão na Suíça, na Inglaterra e na Península Ibérica. De lá vieram para o Brasil, para o Nordeste, porque a civilização brasileira começou no Nordeste. Naquela época, fim da Renascença, toda música da Europa, popular ou da corte, era desse jeito, seguia os modos. Essa música de modos chegou aqui no Nordeste, atingiu o Norte até mais da metade de Goiás [do lado oriental] e o norte de Minas. Eu a encontrei, fazendo pesquisas para o Ministério da Educação, no litoral norte de São Paulo – Ilha Bela, Caraguatuba, São Sebastião e principalmente em Ubatuba - um pouquinho no sul de Minas, nas Folias de Reis, e mesmo no Paraná, diminuindo à proporção em que vamos para o Sul, mas chegando a Santa Catarina e até o Rio Grande do Sul, porém aí não melodicamente, mas como resultado do canto a duas ou três vozes, que ouvi por meio de uma gravação feita por uma aluna minha, que pesquisou o moçambique. Com a imigração nordestina, esses modos foram para a Amazônia, sobretudo Manaus, onde antes não existiam de maneira assim tão forte. Uma ocasião eu passei um mínimo de quatro horas ouvindo música em Manaus e os modos nordestinos estavam lá. E eles também vão entrando em São Paulo. Na cidade de São Paulo existem, hoje em dia, pelo menos 90 forrós em funcionamento.

          Depois do século XVIII se firmou, na Europa, um novo conceito que não era só melódico, mas também harmônico. É a tonalidade clássica, que consta, em princípio, de quatro modos. O modo maior, de que eu daria como exemplo a cantiga infantil “Atirei o pau no gato”, o modo menor, de que é exemplo outra canção infantil, “Terezinha de Jesus” e mais duas variantes que o modo menor acontece ter. Os modos nordestinos são portanto dez. Os três fundamentais e suas três variedades, mais os quatro clássicos. Estes vieram muito depois, já que surgiram na Europa quando o Brasil estava descoberto.

          Lá na Europa, a música deixou as cortes, foi para os salões burgueses. Começaram a aparecer valsas, quadrilhas, polcas, essas coisas todas. Daí foi fácil descer ao povo. Os novos imigrantes europeus, a partir do século XIX, foram para o Sul do Brasil, levando essa música. De maneira que à proporção em que a  música brasileira desce para o Sul, essa tendência vai sendo notada. Ela aparece no Brasil depois da Abertura dos Portos, não obstante o antigo modalismo continuar.

          São portanto nada menos de dez modos – ou escalas, se preferirem – em voga no Brasil. Os de procedência grega estão, por exemplo, nos baiões de Luiz Gonzaga, nos aboios, na música dos “caboclinhos”, na dos violeiros, etc. Os que surgiram depois da Abertura dos Portos, estão no pastoril, no frevo, e em algumas outras poucas manifestações populares. O que predomina mesmo no Nordeste é aquele tipo de modo de tradição mais profunda e genuinamente popular. Seja como for, os dez modos europeus estão perfeitamente em voga.

          E o negro? O que nos trouxe? A gente sabe que uma escala é uma sucessão de tons, mas estou aqui falando de modos, que são maneiras melódicas. Pode existir modo de não mais de uma nota, “in recto tono”, melodia reta. Nos Xangôs encontrei uns poucos exemplos desse modo reto. Encontrei três modos de duas notas. Cinco de três notas. Seis, de quatro notas. Sete, de cinco notas. [É uma escala pentatônica, mas que nada, absolutamente nada, tem a ver com a tradicional escala pentatônica chinesa. A disposição dos tons é absolutamente diversa.] De seis notas encontrei seis exemplos. De sete, três. De oito notas, quatro. Total, nos Xangôs, 35 modos.

          E nos Maracatus? O leigo – em música e em Maracatu – normalmente não percebe as diferenças entre eles e os Xangôs, por causa do estilo do canto, que é o mesmo. Mas posso afirmar que existem, nos Maracatus, um modo de duas notas; dois de quatro, cinco de cinco – ainda aqui, nada a ver com a escala pentatônica chinesa -; dois de seis; quatro de sete notas. Um total de 14 modos nos Maracatus antigos, aqueles que são visíveis reminiscências da coroação dos Reis do Congo. No total, 49 modos negros. Acrescentando-se a eles os dez modos europeus, há um total de pelo menos 59 modos em voga no Nordeste, sem falar na mistura dos africanos entre si e deles com os europeus.

        

 

      Todavia, uma das coisas mais importantes da contribuição do negro – se bem que todas são, a melodia, o ritmo, o instrumento – é, a meu ver, a maneira de cantar. Não é bem o timbre. Eu discordo completamente, porque não é questão de timbre inato da voz. Eu já tive ocasião de estar em terreiro de Umbanda, lá no Sul, com maioria absoluta de gente branca que, no entanto cantava em estilo negro. E já tenho ouvido corais de negros norte-americanos que cantam sem esse enfoque, de maneira completamente acadêmica. O negro, quando ele é mesmo povo, tem um modo próprio de cantar, que influenciou muito a música popular brasileira.

          É também o estilo de tocar, especialmente tambor. O negro dá outra ênfase à execução, dá outro colorido, pela maneira como bate na membrana, pois cada ponto produz uma tonalidade diferente, ora ele bate com a mão mais aberta, ora mais fechada. E mesmo quando usa baquetas, são baquetas diferentes, visando substituir as mãos para produzir um som diferente, quer pela qualidade das baquetas, pela maneira como são feitas, quer pelo ponto de percussão. Noutras palavras, o negro tem um sotaque musical.

          Agora, ao ritmo. Só aqui no Recife, nos Xangôs, eu registrei, na minha época, mais de 500 variações. Porque é o seguinte. No mesmo terreiro, quando muda o ogan-ilu, o chefe dos ogans, alguma coisa no ritmo sofre alteração. De terreiro em terreiro ocorrem alterações. As mais de 500 variações a que me referi compreendem apenas seis horas de execução, duas em cada visita, pois eu, para ir aos terreiros, ficava condicionado a ir de táxi, com o motorista preocupado em não ficar esperando muito, porque não é vantajoso. Felizmente eu tinha um informante muito bom, o negro Gobá – ele me foi recomendado pela velha Santinha do Maracatu Elefante – rapaz que possuía espírito de pesquisador. Ele se metia até dentro dos templos batistas, nas Assembléias de Deus, e depois me contava tudo. Ele foi extremamente valioso, sendo capaz de esclarecer uma infinidade de coisas.

          Vamos exemplificar o ritmo da percussão. Tomemos, para comparar, a pulsação, que equivale a tempos de compasso. Existem as subdivisões da pulsação. Subdivisões pares, de dois, de quatro. Subdivisões ímpares, de três, de duas vezes três. Há toques mistos. Só encontrei um compasso de três pulsações, o Alujá ou Elujá de Xangô, aqui no Recife. E só num terreiro, o terreiro de Severino, encontrei, ouvido em três ocasiões, um toque de cinco tempos, que normalmente não existe em música brasileira, mas que é comum nos países eslavos.

          Vamos aos toques. Nada tenho a ver com a etimologia das palavras batá, melê, nagô. São expressões que registrei. Vamos ouvir primeiro um toque chamado batá. * [Os cinco primeiros toques foram gravados em casa de Lídia de Oxalá e quem puxava as toadas era o seu genro Zé Romão, filho carnal de Pai Adão. É o que pode haver de mais tradicional no Xangô de Pernambuco.]

          Existem vários toques com o nome de batá. Esse é de duas ou quatro pulsações, dependendo de quem o anota. Ocorrem subdivisões ímpares. Há no conjunto outro tambor, que nesta gravação a gente não pode perceber, que mantém subdivisões ímpares em cada pulsação.

          Outro toque é o melê. Aliás, quero aproveitar o momento para dar aqui uma informação, que nenhum pesquisador parece ter anotado, obtida do nosso amigo Gobá. Sabe-se que ilu é o nome do tambor usado nos xangôs. É um tambor em forma de barril de vinho, com duas membranas, diferindo do atabaque, afunilado e com uma só membrana. Os nomes antigos dos tambores eram: melê-chefe, o ilu principal, que comandava o toque; melê-de-marcação, o central, que mantinha o mesmo ritmo, como um cavaquinho que executa o centro na execução de um choro; e melê-uncó, o menor, no qual são executadas muitas variações. Uncó quer dizer falso, uma vez que as variações se desencontram propositadamente na polirritmia do conjunto. Mas não é em todos os toques que se pode perceber esses detalhes. Passemos a ouvir um toque melê de duas pulsações e subdivisões ímpares. Determinadas variações, que saem do esquema, ficam por conta dos executantes. Conforme o santo para que se toca ou que se manifesta, há maior ou menor liberdade nas variações. Neste que vamos ouvir, ocorrem muitas. Que beleza!

          Outro toque é o batá-de-Emanjá, de duas ou quatro pulsações – preferi transcrevê-lo em quatro – com subdivisões ímpares. É um toque considerado dificílimo. Foi gravado numa das primeiras vezes que visitei os terreiros, justamente no Xangô de Lídia de Oxalá. Passei 60 dias, no mínimo, para conseguir entendê-lo. Pois o ritmo da percussão forma uma unidade determinada, a dança se mantém como unidade independente, e o canto, por sua vez – puxado por Zé Romão, que fazia movimentos de cabeça para os iniciados cantarem juntos – constituía outra unidade, também independente. Noutras palavras, cada parte nada tinha a ver com a outra.

          Agora outro batá – nome muito comum – de subdivisão par, como se há de notar. Ele é seguido pelo chamado toque nagô, muito comum no Recife, assim como na Bahia. Na minha estimativa, este toque ocupa a média de 30% da duração de cada sessão, de cada festa. É portanto o mais característico dos terreiros. A base da dança é em dois tempos, duas pulsações. Interessa conhecer esse mesmo toque numa execução da Bahia. Evidentemente muda alguma coisa, já que lá os instrumentos são de outro tipo. Aqui no Recife, os tambores têm a caixa de ressonância menor, por isso as variações não devem ser muito rápidas. Ainda da Bahia, um Alujá ou Elujá [depende de quem o pronuncia], toque de Xangô, isto é, do Orixá Xangô. É interessante comparar as interpretações da Bahia e de Pernambuco.

          A quantidade de toques nos Candomblés é enorme. Já ouvi muitos em terreiros do Rio de Janeiro. Da Bahia, porém, só os conheço em gravações, não ao vivo. Tive porém oportunidade de ouví-los no Rio Grande do Sul, nos batuques, que são os candomblés da lá. Ouvi-os, em Porto Alegre, no terreiro de Mãe Apolinária, no bairro da Auxiliadora. Mais tarde, meu amigo Carlos Galvão Krebs me presenteou com uma fita magnética. Pude observar que muitos toques apresentam a mesma fisionomia dos demais cultos africanos do Brasil, apenas com algumas variantes. Das melodias, algumas eu reconheci a partir do meu conhecimento do Recife. E é neste ponto que insisto: na hora de cantar nos cultos africanos, o gaúcho espanholado o faz no estilo africano.

          Vamos agora sair dos xangôs. Vou mostrar a mistura dos elementos religiosos com profanos. Ouçamos um toque de Bumba-Meu-Boi, do Maranhão, no qual se misturam medidas diversas, enquanto a melodia vem num daqueles modos não negros.

          A meu ver, onde chegou a influência banto, os toques são mais simples, provavelmente porque os negros ditos sudaneses sofreram influência árabe, mais requintada, com maior riqueza rítmica. O certo é que, no momento em que a música sai do culto mais tradicional, do Xangô ou do Candomblé, o toque torna-se mais simples. Vejamos, por exemplo, um toque de macumba carioca, que gravei em Irajá. A aparência de samba, que todos já conhecemos, está aqui. Existem outros toques na macumba, mas o predominante é deste tipo que é mais fácil. A vantagem dessa facilidade é que, quando uma pessoa não pode tocar, outra a substitui, embora sem aquela riqueza de variedade do culto tradicional.

          Existe, ou ao menos existia, aqui no Recife, como em Porto Alegre, Salvador, Rio e outros lugares, um toque chamado congo. Não tenho dúvidas sobre sua procedência angolana ou conguense, porque já o ouvi em gravações documentárias procedentes dessas áreas de idioma banto. O toque congo aqui reproduzido vem do terreiro de Pai João d’Angola, de Belo Horizonte. Além do toque, a gente percebe o estilo negro de cantar, mais a contribuição mineira, com o acréscimo de uma segunda voz.

          Outra influência claramente negra encontra-se no toque do baião, pelo menos no bombo, embora possa aparecer também em outros instrumentos. Essa influência negra, sobre o ritmo do baião, chega às vezes a um certo requinte, que quem não estudou não percebe. O baião-de-viola é ainda mais africano, tem exatamente a mesma síncope característica. Isso fica muito claro na peça de que aqui reproduzimos um pequeno trecho, a célebre estória A onça e o cachorro.   

          Existe uma outra música de influência africana, que, no toque, mas nem tanto na melodia, apresenta semelhança com o baião. É o tango, que nada, pelo menos aparentemente, tem a ver com o tango argentino. Em face do sucesso do tango argentino, começaram a chamar o nosso tango de “tango brasileiro”, como se ele fosse o equivalente do argentino. Porém o brasileiro já existia muito antes do argentino. Houve, e ainda há, quem o confunda com maxixe, o que é um erro crasso, porque maxixe não é música, nem sequer dança propriamente dita, mas simples estilo de dança. Dançava-se o maxixe com a música da polca, do galope, etc. Porém o tango brasileiro se prestava melhor ao maxixe. Daí muita gente confundi-los, inclusive por interesse comercial. Quem pega as músicas de Chiquinha Gonzaga e de Nazaré, editadas na França, justamente quando o tango argentino fazia o maior sucesso, vê escrito “tango-maxixe”. Subentenda-se, “tango para se dançar o maxixe”.

          Quero fazer um adendo. O musicólogo argentino Rodrigo diz que o tango brasileiro teria sofrido a influência da habanera, sobre a qual ainda pretendo escrever um trabalho. Diz também que o tango argentino sofreu a influência do negro brasileiro, exportado como escravo para Buenos Aires. Para ele, o tango argentino é a versão local do tango brasileiro, assim como o brasileiro é a versão local da habanera. Esse Rodrigo dá também uma explicação para o nome – eu pessoalmente não entendo de etimologia, fica por conta dele – dizendo que a palavra tango vem do Xangô, palavra que significa entre nós, tanto o culto quanto um de seus orixás. De fato, em Cuba Xangô se pronuncia tchangô, e pode ser que daí tenha saído tango. O tango aqui reproduzido recolhi de Vicente, zabumbeiro de Caruaru.

          O toque sincopado no grave, que é muito africano, a gente encontra também na música lenta, de procissão, como na procissão da sexta-feira da Paixão, de novena.

          Um dos toques que se usa muito – mas não para dança – nos cultos africanos, e às vezes, em músicas profano-religiosas, como congada, folia de reis [em certos momentos], etc, é um toque que aqui no Recife chamavam rufado. É um toque aleatório, sem compromissos com o tempo. Os tambores fazem um trêmulo, podendo dar umas pancadas. O agogô faz o que quiser.

          Na congada de São Paulo existem diversos toques, embora nem tantos como no Xangô. Escolhi, para reproduzir aqui, um que se assemelha ao baião. Em seguida um fandango de São Paulo, com particularidades tipicamente negras e por último, para comparação, um fandango do Paraná.

         Quero só ainda dizer que a síncope africana está muito presente na música brasileira. É verdade que a síncope não é exclusiva do Brasil, nem da África. Os portugueses também têm, bem como outros povos de cultura completamente diversa. No entanto a maneira como é feita no Brasil – a execução, a articulação – é tipicamente africana.

          Mário de Andrade escreveu, não me lembro em que livro [mas é uma frase muito citada], que uma grande parte, talvez a maior parte do que nós recebemos foi européia. Mas o negro coloriu tudo. Saravá!