Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

música e os passos no frevo

 

A Gazeta – São Paulo, 26 de dezembro de 1959.

 

          A música do frevo – aliás, uma simples marcha, pois em Pernambuco é raro ouvir-se alguém se referir a ela como “frevo”, mas sempre como “marcha” – nasce pronta na orquestração. Isto é, melodia, harmonização, crescendo, diminuindo, sucessivos pontos culminantes, contrastes bruscos, efeitos especiais de orquestração, etc., surge tudo da imaginação do próprio compositor, músico que escreve nota por nota aquilo que deseja venha a ser ouvido. O eventual aparecimento de compositor de oitiva se deve apenas a circunstâncias especiais, às quais um músico autêntico às vezes deve atender orquestrando a composição, assim forçado por injunções de alguma ordem. Normalmente o compositor de marcha pernambucana [“frevo” ou “marcha-frevo”, se o quiserem] é músico, às vezes profissional, ou semi-profissional, que zela pela moralização de sua classe artística.

          Basta citar os nomes de alguns dos atuais mais credenciados compositores para evidenciar tais afirmações: Nelson Ferreira, orquestrador e pianista; Levino Ferreira, ex-saxofonista e atualmente fagotista da Orquestra Sinfônica do Recife; Zumba, saxofonista; Felinho, saxofonista, possuidor de uma técnica invulgar; Carnera, ex-pistonista profissional, etc. Entre os autores de marchas cantadas [“frevos-canções”]: Capiba, ex-músico de banda, depois pianista de cinema mudo e acompanhador exímio de famosos recitalistas que visitaram o Nordeste; o já citado Nelson Ferreira; Marabá, ex-músico de bandas; os Irmãos Valença, pianistas [aliás, verdadeiros autores da célebre marcha que se carioquizou no tratamento de Lamartine Babo, “O Teu Cabelo Não Nega”, cuja introdução deriva de um antigo estilo de marcha pernambucana, ou “marcha-frevo”], etc.

          Os atuais meios mecânicos de divulgação, como o disco e o rádio, vieram dar maiores oportunidades aos compositores, possibilitando que suas composições se tornassem mais conhecidas. Mas apesar disso, os autores imprimem ou copiam suas peças e às distribuem nas diversas orquestras e clubes nordestinos, no tempo necessário antes do carnaval. Nessa ocasião, os clubes contratam numerosos músicos, especialmente trombonistas, e com eles realizam ensaios primeiramente internos, e depois externos, a fim de que músicas antigas sejam recordadas e as últimas novidades sejam aprendidas pelos dançadores. Esses ensaios proporcionam o treinamento de passistas e, vale ressaltar, estes dançam não somente as marchas em si, mas dançam as melodias e as respectivas orquestrações, pois são as melodias e orquestração que sugerem os passos. Ritmo, melodia, orquestração e passo formam um todo na dança do frevo.

          Não poucas vezes, no Recife, presenciei passistas qualificados se recusarem a qualquer [...]

          [...] inadmissível dançar dissociado da composição integral. Daí, o motivo por que os clubes, semanas antes do carnaval, promovem os necessários ensaios, dispendendo com músicos executantes quantias enormes.

          Por isso, eu me admiro quando chega às capitais do sul algum dançador que vem se exibir, dançando frevos esquecidos e em orquestrações que só vai tomar conhecimento no momento da execução... O leitor pode estar certo que aí não está um passista levando a sério a sua exibição, mas o dançador que – por falta de crítica de quem conhece o assunto – apenas se apresenta para receber uns trocados e depois dizer a todo mundo que já dançou na televisão. Convém mencionar também entre os dançadores duvidosos, os que pretendem transformar a marcha pernambucana em galope!

          As marchas mais antigas que se conhecem eram cantadas, como ainda hoje ocorre nos agrupamentos populares recifenses chamados “blocos”, nos quais participam alguns poucos instrumentos de sopro e de percussão, enquanto um enorme coro canta sob fundo harmônico de grande número de violões. Num dos carnavais que passei no Recife pude contar oitenta violões, num dos blocos desse tipo. E foi inspirado nas marchas dessa espécie que o compositor Nelson Ferreira escreveu “Invocação”, sucesso carnavalesco em todo Brasil, subtitulando sua composição “frevo de bloco” – pois essa explicação atenderia às finalidades da discografia comercial. De qualquer forma, a imitação das marchas de bloco é das mais felizes que conheço. Bem, depois do aparecimento das primeiras marchas pernambucanas, todas cantadas, os compositores e executantes foram introduzindo nelas “o molho” que estimulasse os passistas. Deformaram tanto a maneira inicial da marcha que esta acabou tomando a feição que agora se conhece na marcha moderna [ou seja, “marcha-frevo” ou “frevo de rua”]. Todavia, como nem todo popular pode ser sócio de algum clube que no carnaval contrate músicos para executarem o repertório carnavalesco, e como as marchas dos blocos são uma espécie de propriedade dos mesmos, com execução exclusiva, é preciso então que se façam marchas cantadas “frevos-canções”, na discografia, que são tão legítimas como as instrumentais – ou talvez mais autênticas, pois sua aceitação alcança o povo em geral e, ainda são adotadas nos clubes.

          A música do frevo não é folclórica, mas de fonte semi-erudita, muito embora de caráter popular e destinada ao povo. Os passos, porém são de invenção anônima e diversos deles já se encontram perfeitamente tradicionalizados, e até com curiosas designações.