Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

ARTES E ARTISTAS

 

GÍRIA MUSICAL DOS VENDEDORES DE AUTOMÓVEIS NO RECIFE

 

Diário de Pernambuco – Recife, 1953.

          São Paulo, maio – Na Rua do Imperador, esquina com Marques do Recife, é onde se concentra um numeroso grupo de vendedores profissionais de automóveis usados. O transeunte que por ali passa ouve por várias vezes um linguajar que lhe é completamente estranho, sabem que os termos em si, sejam comuníssimos. Trata-se de uma gíria toda especial que, embora muito limitada, é por excelência musical. E aqui ficam algumas anotações extraídas das informações de vendedor de automóveis, José Mojicas – cujo apelido, adquirido no meio de sua classe profissional , bem revela o espírito musical dos seus colegas...

          NA VALSA – É o pagamento realizado lentamente, em prestações consideradas suáveis, cuja mensalidade varia entre dois mil e dois mil e quinhentos cruzeiros. Como é sabido, a valsa é considerada uma dança lenta, é daí a aplicação da gíria: <O pagamento é na valsa>.

          NO TANGO – É o pagamento apressado, em mensalidade relativamente altas, regulando a quantia mínima de uns seis mil cruzeiros. O pagamento no tango é também aquele que divide o total em dois ou três pagamentos, sempre em quantias que tornam difícil o seu cumprimento por um cidadão da classe média.

          O tango, dança a que se referem os criadores da gíria, não é, forçosamente e tango argentino, tão divulgado em discos pelas emissoras brasileiras. Não é o tango portenho, que no Brasil é dançado apenas, nos salões mais ou menos metidos a granfinos e onde o vendedor profissional de automóveis usados não costuma penetrar para se divertir. O tango em questão é o nosso tango ou tanguinho, meio polca, meio maxixe e meio choro – tango que ainda se ouve executado pelos músicos realmente populares, pelas Zabumbas a por muitas bandas de música desse imenso Brasil. Não é o tango platino, doentio nos versos e na música com sua série de passinhos que mais se parecem propriados para paralíticos ou distração para suavizar histeria. É o tango apressado, vivo, espertinho, é o delicioso tango que contribuiu para a fama de um Ernesto Nazaré e de um Marcelo Tupinambá – somente neste sentido é que a gíria se justifica.

          AÍ É SAMBA; MARCHA É DO OUTRO LADO – Eis aí uma frase curiosa que é gritada em plena rua, com todas as forças dos pulmões, toda vez que um motorista por incompetência procura colocar em primeira [primeira velocidade, primeira marcha] a alavanca de marcha quando o automóvel está em movimento.

          Sempre que isso acontece, as engrenagens, por meio de um atrito um tanto violento, produzem um ruído característico e relativamente intenso, que é ouvido até uma distância apreciável do carro. Nesse momento é que na rua do Imperador ouve-se alguém gritar para o motorista descuidado: - <Êi, aí é samba; marcha é do outro lado!...> Ouvindo esta piada em forma de trocadilho, o motorista menos retraído se desconcerta completamente...

          Ainda sem fugir do setor musical, é interessante anotar aqui um caso que se passou entre um vendedor de automóveis e um homem qualquer. O vendedor havia negociado uma bonita camisa com um homem, seu conhecido. Este adquiriu a camisa como sendo de primeiríssima qualidade, contente por ir estreá-la dançando o coco, ou o samba, termos muitas vezes aplicados indiferentemente ao designar o coco. Bem, o homem dançou a noite inteira. Na manhã seguinte ao chegar em casa, verificou a camisa estar completamente desbotada. E não teve dúvida, dias depois, de reclamar ao vendedor:

          Homem – Como é, você me vende esta camisa como sendo de boa qualidade. Passei a noite num samba e ela desabotou toda!...

          Vendedor – Ora, quem manda você dançar samba com ela? Essa camisa é só para dançar valsa, que é mais suave..