Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

Em termos de música paulista


 

Jornal do Comércio – Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1964.

 

          Talvez não seja exagero afirmar que os compositores paulistas não querem nada com as tradições populares bandeirantes. Salvo as raríssimas exceções notadas numa e noutra peça pequena e isolada, preferem imitar o Nordeste e o Rio de Janeiro através de informações nem sempre satisfatórias, enquanto que em São Paulo há uma música popular típica a espera de algum talento que a eleve a termos de música culta: Moda-de-viola, Cururu, Lundu, Jongo, Tambu, Cateretê, Congada, Folia-de-Reis, Folia-do-Divino, Dança-de-Santa-Cruz, Dança-de-São-Gonçalo, Moçambique, Encomenda-de-Almas, Sessão-de-Terreiro, Pregões, Cantos-de-Trabalho, Fanfarras [que ainda não foram estudadas], etc., etc. Preferem imitar o Nordeste e o Rio de Janeiro ou, então, descambar para as experiências eletrônicas, cuja prática pertence mais à engenheiros que a músicos. Esta gente toda parece ignorar o significado do conteúdo regionalista da obra de Alexandre Levy e Marcelo Tupinambá – guardados o gênero e época de cada qual.

          No entanto, o caráter da música paulista parece que acaba de ser definido pelo compositor Teodoro Nogueira, nascido no interior de São Paulo. Isso é o que nos parece afirmar o seu <Concertino> para <viola brasileira> - isto é, viola caipira – e orquestra de câmara, cuja primeira audição ocorreu meses atrás na Capital paulista. Suas melodias, bem assim como seqüências harmônicas, ritmos e rasqueados, se caracterizam pelo sabor notadamente paulista. Cabe salientar que Nogueira não abriu mão do seu hábito de empregar a sétima abaixada, como reminiscência de sua produção anterior decalcada na sétima <nordestina>. Fê-lo agora, porém, de modo diferente, à maneira paulista, por meio da qual realça o caráter regionalista de sua obra.

          Se o <Concertino> de Teodoro Nogueira marca o começo de nova etapa na música paulista, os sete <Prelúdios> para a referida viola caipira vem beneficiar ainda mais a cultura musical paulista daquela atmosfera regionalista de que carecia. É que pela necessidade de estudar a referida viola caipira, Nogueira viu-se levado a observar os rasqueados, harmonias típicas, fragmentos melódicos, ritmos e maneira de executar tudo isto no instrumento. Deu largas à imaginação, humanizou sua obra e o resultado é um conjunto de expressivos prelúdios. Sim, Nogueira preferiu denominar a cada peça prelúdio, a fim de evitar o designativo ponteio – curiosa corruptela criada gratuitamente no sentido de falsear o termo que os violeiros, tanto de São Paulo como do Nordeste e ainda que analfabetos, pronunciam corretamente: ponteado! Tudo isto vem confirmar o quanto seria oportuno que, de quando em vez, o compositor fizesse alguma pesquisa folclórica, para se orientar conscientemente pelos caminhos surpreendentes do regionalismo musical em lugar de pretender adivinhar como trabalhar material popular de uma região que desconhece. E o compositor paulista nem precisa sair dos limites da Capital se quiser tomar contato com o folclore paulista, pois Rossini Tavares de Lima, Secretário da Comissão Paulista do Folclore, está sempre disposto a oferecer essa oportunidade ao que solicitar a ele o simples comunicado telefônico que indica dia, local e hora.

          Além do valor artístico e regional das obras antes mencionadas de Teodoro Nogueira, elas valem igualmente como primeira experiência no sentido de conduzir para o terreno da música erudita um instrumento popularíssimo no Brasil inteiro, a viola caipira de dez cordas, esta mesma viola em que o moço Antônio Barbosa executou o <Concertino> de compositor agora realmente paulista, esta mesma viola que Barbosa Lima tem executado como parte dos seus programas nas audições de violão.

          Portanto, estão de parabéns: Antônio C. Barbosa Lima, o pioneiro executante de viola brasileira ou viola caipira no terreno da música erudita; Rossini Tavares de Lima, folclorista e crítico musical que possibilitou o compositor tomar contato com a música folclórica paulista, colocando à disposição do compositor suas gravações, seus livros e o indispensável material humano; o compositor Teodoro Nogueira, a quem cabe a glória de ser o primeiro autor a pensar em termos de música paulista; e São Paulo, que já pode afirmar que fornece sua contribuição regional à cultura musical brasileira.