Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

Escalas musicais do folclore brasileiro

 

Jornal do Comércio – Rio de Janeiro, 28 de julho de 1963.

 

          SEGUNDO os jornais, deverá ter sido apresentado em Mesa-Redonda do V Congresso Brasileiro de Folclore [Fortaleza] um trabalho do professor Ênio de Castro e Freitas, da Comissão Estadual de Folclore do R.G. do Sul, tratando de escalas musicais em voga no nosso folclore. O referido estudioso teria concluído: “a) no estado atual dos estudos do nosso folclore musical, devemos admitir a existência das duas escalas tradicionais – a maior predominante, e a menor: b) sem negar nem afirmar a existência de outras escalas, devemos reconhecer não estar suficientemente provado que existam, sendo absolutamente insuficiente a documentação existente”, etc.

          Realmente, a documentação é quase precária. Mas isto não invalida a certeza de que existam. Pois se não bastasse o testemunho de diversos estudiosos, os documentos publicados no primeiro volume de “Melodias Registradas por Meios Não-Mecânicos” [Pref. Municipal de São Paulo, 1946] ofereceriam indubitável prova da ocorrência de outras escalas no Brasil. Escalas modais que – pelo menos no sentido folclórico – certamente são mais “tradicionais” que as clássicas maior e menor admitidas pelo professor Ênio de C. e Freitas – pois vieram com a plebe colonizadora numa época em que ainda se não havia firmado, na Europa, o sistema tonal clássico. Quem examina na obra, o documentário referente ao Nordeste a partir de Salvador, encontrará 339 registros melódicos, dos quais; 238 revelam as ditas escalas maior e menor; enquanto 89 escalas modais tanto de origem ibérica como africana; e 7 acusam feição híbrida. Portanto só aqui neste volume editado a 17 anos passados, se encontra aproximadamente um terço de melodias em escalas não clássicas – o que, para a época, já se torna um documentário apreciável.

          Resta acrescentar a isto a contribuição, nas pesquisas, de autores modernos bem assim como o reexame de todo o material publicado desde, pelo menos, as colheitas de Guilherme de Melo.

          As escalas modais embora também ocorram na Guanabara [alguns Sambas de morro e Macumbas] e no litoral-norte do Estado de São Paulo [principalmente em Ubatuba], é no Nordeste que predominam em quase toda linha. Pelo menos em Pernambuco. Numa estimativa – aliás, muito pessimista – sobre escalas em voga no território pernambucano – e note-se a estimativa restrita aquilo que no decorrer de três anos, pude registrar ou apenas escutar – acredito viável a predominância de escalas modais [as que o prof. Ênio de C. e Freitas parece duvidar] em cerca de oitenta por cento de toda música folclórica de Pernambuco. Explico-me de outro modo: Três escalas modais de procedência ibérica – ocorrem absolutas [isto é, 100%] na música de Violeiros [na viola, na rabeca e na voz de cantadores aos milhares!]. Catimbó [culto religioso concorridíssimo]. Cabocolinhos [música instrumental que é a única no Recife]. Abôio e cantiga de Literatura de Cordel; 89% aproximadamente, na de Pregão. Moda de Cego de Padinte e de Amassar Bolacha; 80% de Bumba-meu-boi [principalmente baiões], Zabumba [orquestra típica] e Maracatu de formação interiorana; 70% na dança do Coco e Reza-de-Defunto [incelências e benditos]; e 50% ou mais, na de Toré [culto religioso]. Guerreiros e de Sanfona. Escalas modais de procedência africana [talvez quatro] – ocorrem 100% na música de Xangô do Candomblé pernambucano e aproximadamente 99% no Maracatu recifense [de formação remota]. Escalas maior e menor [como quer o Sr. Ênio de C. e Freitas], predominam somente no Pastoril, na Modinha e Romance. Deixo de considerar a música do frevo por não ser folclórica, mas de autor identificado e, sobretudo, semi-erudito, pois o bom compositor é capacitado para instrumentar sua composição – talvez caso único no mundo.

          O prof. Ênio de C. e Freitas acrescenta: “c) só devemos admitir como válidas as transcrições fidedignas de melodias e acompanhamento, e não de melodia apenas como se tem geralmente feito entre nós”. Deveras o registro incompleto tem sido uma das deficiências nas pesquisas brasileiras, em virtude de nossa inexperiência neste terreno. Mas apesar da boa vontade que possa animar o pesquisador, ele muito se decepcionará se não for músico muito bom [bom mesmo], não tenha grande amor ao folclore e não se submeta – muitas vezes! – a passar madrugadas inteiras a ouvir, observar, indagar, estudar – enfim – para concluir o registro em condições mais ou menos ideais, a exemplo admirável do prof.Rossini Tavares de Lima, da Comissão Paulista de Folclore. O autor destas linhas quase se sente incapacitado para a tarefa, ao verificar que precisou quarenta dias, apreciando ensaios e funções para conseguir assinalar os toques dos velhos Maracatus recifenses; e sessenta visitando terceiros e ouvindo fita magnética, para descobrir as sutilezas do toque “Batá-de-Iemanjá” dos Xangôs da mesma cidade. Por outro lado, restaria indagar como proceder, o pesquisador, no caso de música como a do Violeiro, que quando canta não toca, e quando toca não canta; ou Reza-de-Defunto, Abôio, Pregão, etc...que não tem acompanhamento. Pergunte-se ainda: para completar um trabalho que fosse composto “de melodia e acompanhamento”, que melodia seria acrescentada à música apenas percussiva [...]     

          Finalmente as dificuldades são enormes. O próprio prof. Ênio de Castro e Freitas o demonstra ao deixar de assinalar o acompanhamento às nove melodias transcritas como são colaboração no trabalho “As Congadas do Município de Osório”, de Dante Lay’ano [Edição de Assoc. Riograndense de Música, 1943, bem como não anota uma linha melódica, sequer no seu próprio volume]. [...]

          Acredito que quando as Nações gaúchas – versão portoalagrense do Candomblé – forem visitadas por músico folclorista e deveras estudioso do material in loco, muitas novidades aparecerão para os interessados. Certamente, ritmos para nós desconhecidos; e talvez mais outras escalas. Seria oportuníssimo este trabalho, se feito pelo ilustre professor Ênio de Castro e Freitas.