Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

ÍNDIOS DE PETRÓPOLIS

 

DANÇAS E INSTRUMENTOS MUSICAIS

 

A Gazeta – São Paulo, 19 de dezembro de 1959.

 

          Há danças em que participam apenas os Cabocos ou os Guerreiros: “Dança de Caça”, os Cabocos caçando; “Dança da Pesca”, “Cabocos pescando”; “Dança dos Guerreiros”, em que tomam parte os Guerreiros. Mas também há a “Dança Guerreira”, cuja coreografia simula um combate entre Cabocos e Guerreiros. Segundo informação, esta dança é uma “espécie de jogo”, e o seu resultado está na dependência da habilidade, audácia, destreza, etc., ou mesmo “sorte” dos participantes. Os Guerreiros devem alcançar o adversário “na barriga”; e os Índios, “no peito”. E o lutador que for atingido pela arma do adversário deve “morrer”, caindo no chão. Caso não o faça, como determinam as regras e a cortesia, poderão advir resultados imprevistos.

          O improviso destes registros não possibilitou o pesquisador se informar sobre o papel dos meninos no decorrer das coreografias descritivas, bem assim como as figurantes admitidas nos últimos anos.

          Os instrumentos musicais do Grêmio Carnavalesco Estrela do Morin são todos de percussão: seis Caixas [três Caixas-de-guerra e três Tarois]; seis Pandeiros; seis Castanholas, executadas pelas Pastoras.

          Outrora usaram-se o Reco-reco e o Tamborim, bem assim como o Camisão. Este instrumento, o Camisão, é uma curiosa espécie de Tamborim baixo – ou seja, o contrabaixo dos Tamborins – e em Petrópolis sua forma se assemelhava à do Pandeiro, com diâmetro de cerca de um metro. Deste modo, o aro alcançava mais ou menos dez centímetros de altura, ao qual se juntava outro, agora de ferro, a fim de resistir à pressão da membrana de “cabrito velho”. Perpassando o aro, uma ripa dava origem a um cabo de, no mínimo, vinte centímetros, pelo qual o músico o segurava tendo-o apoiado na própria barriga. Tocava-se o Camisão com baqueta um pouco maior e mais grossa que as usuais nas Caixas-de-guerra. O Camisão substituiu o Tamborim e mais tarde também caiu em desuso.

          A seguir, apresentamos um ritmo de marcha executado no Camisão e que o informante – outrora executante do instrumento – considera o mais usual.

AS CANTIGAS

          As melodias do Grêmio Carnavalesco Destemidos do Morin são quase todas classicamente tonais, em maior e em menor. Foi registrado o exemplo de melodia em menor começada numa tonalidade e terminada noutra, isto é, modulante do I grau para o V menor. [Possível primeira parte de alguma melodia de duas partes, cuja segunda fora abandonada ou esquecida]. O pesquisador anotou também melodia vazada em escala hexacordal, cujo caráter, não absolutamente determinado, permite sua classificação quer como melodia tonal, quer como modal afro-brasileiro à maneira de Samba.

          Os cânticos se ajustam a duas espécies rítmicas denominadas “Chula” e “Marcha”, a primeira lembrando o corte rítmico do samba, embora sem a variedade deste, no acompanhamento. A execução vocal ocorre ora em uníssono; ora em diálogo entre solista e coro. A parte solista é cantada pelo Mestre [mestre da música], e a coral se chama “resposta”.

          Entre as canções registradas, o pesquisador trouxe “Regresso”, cantiga entoada quando o grupo deve, nos dias de carnaval, se recolher à sede. É cantada por todos os figurantes, em ritmo de marcha.

            

“O trem já está manobrando

É hora da Estrela partir [bis]

Os Índios já vão s’imbora

Para o sul do Brasil” [bis]

Agora, uma pequena Chula. Igualmente entoada por todos.

 

“Arreda, menino

Lá do meio da rua;

Dexa a nossa Estrela

Fazer a “meia-lua”.

“Meia-lua” é um detalhe coreográfico, na forma indicada pela expressão, e é feito no momento em que cantam o último verso.