Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

ÍNDIOS OU CABÔCOS DE PETRÓPOLIS

 

A Gazeta - São Paulo, 12 de dezembro de 1959.

 

        Por volta de 1922 o carnaval em Petrópolis [Estado do Rio de Janeiro] valia pelas suas características próprias. No decorrer de alguns anos essas qualidades permaneceram ainda, com muita fantasia, confete, lança-perfume e o então tradicional corso na Praça da Liberdade e na Avenida 15 de Novembro. Aqui, parte do povo se amontoava nos canteiros junto ao rio que atravessa a cidade, a fim de melhor assistir à passagem dos automóveis outrora abertos, dos caminhões e dos carros de tração animal. Havia aquelas criaturas que, pelo dom de saberem fazer graça, eram tradicionalmente esperadas, embora vestindo as mesmas fantasias todos os anos. O clímax do carnaval petropolitano parece haver sido alcançado exatamente em 1927.

        Naquela época ainda se viam choros [o que hoje o rádio qualifica de conjunto regional] animando as ruas, em lugar dos atuais alto-falantes, que seriam esplendidamente úteis se, se limitassem a prestar informações mas que, inversamente, só servem para atrapalhar a cantoria do povo. Porém, o que melhor fazia sentir a existência do carnaval em Petrópolis eram os grupos organizados, ao saírem à rua: os Ranchos e os Índios. Os primeiros se limitavam a sair no último dia de carnaval, pois suas sedes ficavam em bairros longínquos. Hoje em dia não vão mais à cidade, pois se restringem principalmente ao bairro de Cascatinha, cujo carnaval se torna dia a dia bem melhor. Ignoro quantos Ranchos restam no município.

        Os Índios, que no meu tempo de menino me encantavam pelas vestimentas estupendamente coloridas, coreografia enérgica e movimentada e também ruidosa música vocal-percutiva, são grupos que a influência de veranistas, do famoso hotel à beira da Estrada Rio-Petrópolis, o rádio, etc., não conseguiram acabar. Não sei quantos grupos existiam antigamente, mas no carnaval de 1953 fui informado de que ainda subsistiam quatro. Todos eles com aquela curiosa mistura de gente branca [de origem ibérica, principalmente], preta, parda e os às vezes louros descendentes de alemães – estes, de fisionomia germanizada e, assim, metidos naqueles penachos de arara...

        No carnaval de 1953 fui a um dos bairros visitar o Grêmio Carnavalesco Estrela do Morin, localizado onde indica a última palavra. Este grupo já existia pelo menos em 1906, quando se denominavam Grupo Carnavalesco Destemidos do Morin, e após diversas vezes mudar de direção e designativo, terminou com o atual nome, que vem desde 1946.

FIGURANTES

        Até 1949 os Índios se compunham unicamente de pessoas do sexo masculino e pouco a pouco a decadência rondava o grupo. Mas a partir dessa data a necessidade de encher os claros com pessoas que se interessassem pelo brinquedo, levou o grupo a aceitar a inclusão de pessoas do sexo feminino. O povo gostou da inovação... e o Grêmio Carnavalesco Estrela do Morin voltou a despertar o entusiasmo da população.

        A pesquisa de um só dia não me possibilitou registrar muita coisa, e nem posso, por exemplo, descrever o guarda-roupa do grupo e nem informar sobre a beleza do colorido das vestimentas. O interessado poderá apreciar alguma coisa examinando a reportagem publicada no “O Cruzeiro” de 3 de março de 1953.

        Nesta época, o grupo se compunha de cerca de cinqüenta figurantes, entre homens, mulheres e meninos, cada qual se vestindo segundo a sua função: Rei, Rainha, Balizas, um homem e uma mulher; Velho ou Palhaço; Porta-Estandarte, mulher; Pastoras, em número de seis [o traje se afasta um pouco daquilo que a função possa sugerir]; Pandeiristas, cinco homens trajando calção e corpete enfeitados de lantejoulas; Caixistas, seis homens, trajando como os anteriores; Caboco-Verão, cuja função é “ver” o caminho a ser percorrido, fazendo o seu reconhecimento, pois “em caso de perigo” o grupo deve se precaver. O “perigo” aqui é reminiscência de antigas rivalidades entre os grupos da mesma espécie em Petrópolis, advindo daí os conflitos de outrora; Caboco-Feiticeiro, o pajé; e finalmente, os Cabocos ou, mais popularmente, Índios, em número de vinte e dois, entre adultos e crianças. Aliás, o agrado dos Índios ou Cabocos no meio do povo é tal que, concentrando as atenções da população, emprestou o seu designativo à espécie de agrupamento: Índios. Os homens que não se vestem à maneira selvicola ou como músico, são qualificados Guerreiros.

         Além do Estandarte, cumpre mencionar outras peças conduzidas pelos populares do grupo: Machadinha, de madeira; Bodoque ou Bodoque-de-Caboco é simplesmente o arco, mas a designação se estende ao conjunto de arco-e-flecha. O comprimento do Bodoque é de 150 centímetros, bem como a sua Flexa. No grupo há somente dois Bodoques, que são conduzidos pelas Cabocas que fazem honra à Porta-Estandarte; Flexa, de madeira e em quantidade suficiente, é utilizada pelo Caboco dançador e suas dimensões são menores que às do Bodoque; Escudo, com Flexa pequena, é usado por cada menino do grupo; Bastão, a grossa bengala do Palhaço; Bicho, ou Bichos, conforme a quantidade que o grupo possui, é o “animal vencido” e simbolizador da luta do homem “contra as feras” e, portanto, a luta do homem pela sua sobrevivência nas selvas.

        Os Cabocos têm um chefe; o Cacique. Este conduz uma trompa feita de chifre de boi, da qual extrai apenas um som. Com caráter de trompa-de-caça, o instrumento se [...]