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Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


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Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


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Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

NOTAS SOBRE O JOGO DE BOLA-DE-GUDE

São Paulo, 1953.

Artigos publicados na "A Gazeta", três sábados seguidos, 30 setembro, 7 e 14 de outubro, de 1961.

 

        O jogo de bola-de-gude parece ser um divertimento infantil muito generalizado em todo o Brasil. Pelo menos em Pernambuco pode-se dizer que é praticado pela gurizada patrícia – embora naquele Estado do Nordeste eu não tivesse a feliz lembrança de observar as suas características. Como a cirandinha, a amarelinha, o papagaio e o baião, o jogo de bola-de-gude é um brinquedo dos mais vulgarizados entre nós. E não há garoto brasileiro que não tenha feito as suas briguinhas na rua por sua causa. Nem há homem que não se preze de, em moleque, ter sido um dos fervorosos adeptos do delicioso joguinho.

        Em Petrópolis, Estado do Rio, o divertimento denomina-se, como em algumas regiões, jogo de bola-de-gude. Participam do brinquedo quantos meninos queiram, inclusive jogando de parceria, isto é, os adversários se intercalando, cada um com uma bola de vidro. O jogo é realizado tendo por campo o chão de terra, sobre o qual se faz um único orifício denominado búlica. Será corruptela de “bula”, no sentido de “habilitação”? Possivelmente, pois só depois de conseguir atingi-la é que o jogador fica apto, com movimentos mais livres, para atacar o adversário.

        Após entrar na búlica é que, realmente, tem início o jogo. Nenhum participante pode matar a bola do companheiro sem que antes alcance a búlica. A uma distância estabelecida da búlica – geralmente cinco metros – ficam os garotos. A preferência é jogar por último, pois se o primeiro participante conseguir boa posição, dificilmente alcançável pelos adversários, estes não jogarão suas bolas em direção do orifício.

        Antes preferirão arreá-las onde eles se encontram, a cinco metros da búlica. E aquele que terá que procurar matar uma ou mais bolas dos concorrentes partindo dessa distância. Mas o primeiro pode achar conveniente não se afastar do orifício, onde forçosamente as bolas dos companheiros poderão se colocar por perto, numa jogada mal feita ou de azar. Nestas condições não será difícil para o primeiro jogador matar as bolas dos amigos – ainda mais que as matanças sucessivas, se as posições o favorecem, poderão fazer com que as distâncias demasiadas ou perigosas, de umas bolas em relação às outras, sejam eliminadas. A cada falha de lance o jogador colocado mais próximo à búlica tem ocasião de preparar o seu jogo.

        Acrescente-se que matar uma bola é vê-la deslocada do seu lugar, pelo contato proposital da bola jogada por quem tem a vez de atirá-la. Isto é, o jogador tem de, com a sua própria bola, mover a bola do companheiro. A palavra tem o mesmo sentido em São Paulo e em Pernambuco. Matar mais de uma bola em um só lance – naturalmente, quando há mais de duas bolas em jogo – é considerado erro.

        Assim, muitas vezes o jogador, que tem a vez, se vê atrapalhado para matar uma só bola em lugar estreitíssimo – além do que é vantajoso ele não jogar a sua bola com demasiada força, a fim de não se colocar muito longe para a jogada seguinte, que lhe caberá por direito ao matar a bola anterior. A carambola – ou carambolar – é o efeito que consiste de uma bola se encontrar com outra várias vezes sucessivamente numa só jogada, num só impulso. Pode não haver conseqüência no jogo. Mas se os parceiros o convencionarem, a partida pode ser suspensa, para ter início outra. Note-se que partida é a fase que inicia ou reinicia cada tempo do jogo. Quando a distância é muito pequena e a matança precisa ser feita de forma muito delicada – por circunstâncias especiais determinadas pelas posições das bolas, Búlica, paredes ou grandes pedras – o jogador pede “palmo”: a distância de um palmo que permita jogar sua bola em posição mais aproximada da bola do adversário. Voltar à búlica no decorrer do jogo é um recurso valido como meio de uma bola ser aproximada da outra. Se o adversário se opõe a este meio, ele dirá: - “Não dou Búlica”.

        Se as posições das bolas são perigosas para certo lance, o jogador pedirá “Muda”, a fim de mudar a posição de uma das bolas, a sua ou a do companheiro. – “Muda para mim”, é o que o jogador solicita, quando deseja mudar a posição de sua bola. – “Muda para você” é o que o mesmo pronuncia quando deseja mudar a posição da bola a ser atingida pela sua, evitando, ao mesmo tempo, encontrar-se em condições de ser morto na jogada do adversário. Se a bola a ser batida estiver entre perigosas pedras, podendo não ser atingida em cheio pela bola adversária, mas somente tocada de leve, o seu dono pode sair-se com esta: - “Feriu, não matou”. Ainda, quando o jogador receia atirar a bola sem matar a do outro ficando, a seguir, em situação difícil, o companheiro pode exigir que ele jogue, dizendo: - “Obrigo o avanço”. O resto fica por conta da pontaria ou da sorte...

        Se o jogador tem o esperto hábito de se valer de impulso para atirar a sua bola e o outro participante nota essa esperteza, o segundo pode exigir: - “Sem impulso” – e o jogador só terá rigorosamente, a força dos dedos para praticar a jogada. Aliás, o bom jogador não se aperta com a eliminação desta facilidade, pois já está bem treinado a jogar sem o impulso.

        Sobre estes pequenos mas importantes aspectos do jogo, há o reverso da medalha. Tanto se pode pedir “Palmo” como o companheiro negá-lo antes de ser solicitado: - “Não dou palmo”, ou “Não tem palmo”. “Não dou impulso”, ou “Não tem impulso”. O mesmo se dá com referência aos demais casos: - “Não dou muda”, ou “Não tem muda”. “Carambolou, morreu”. “Carambolou, não morreu”. “Carambolou, suspende o jogo”. Matar mais de uma bola na mesma jogada é contra a regra, salvo se o jogador diz a tempo: - “Matou duas, morreu” – quer dizer, matou as duas, ambas morreram. Dificilmente são mortas mais de duas bolas na mesma jogada. Este é um raro exemplo de pura sorte...

 

       Se o jogo se apresenta dificultado para o jogador, quanto às posições das bolas, este pode deixar de atirar. Prefere, então, colocar a sua bola numa outra qualquer posição, defensiva e ao mesmo tempo de ataque, às vezes quase sem sair do lugar, e diz: - “Estou”. O outro jogador é obrigado a jogar e se a bola deste também se encontra em posição perigosa, repete o recurso: - “Estou” – que toma o sentido: Estou aqui no mesmo lugar. Cedo-lhe a vez. O prolongamento desta situação leva-os a adiantarem os seus lances, antecipando as jogadas e pronunciando rapidamente: - “Estou. Está, deixa”. E assim vão pouco a pouco modificando as suas posições até se livrarem das paredes ou pedras que possam lhes ser perigosas às jogadas. Mas quantas vezes nada disto dá certo!... Geralmente joga-se a valer bola-de-gude. Cada ponto, cada matança é uma bola conquistada ao adversário. Entretanto, vale jogar dinheiro, figuras de artistas de cinema, cigarros ou qualquer outro material que esteja nas possibilidades aquisitivas dos garotos – inclusive a merenda preparada para o colégio, mormente quando contém marmelada...

        Quanto à preferência de se jogar por último a bola, pela primeira vez em direção da Búlica, é curioso notar alguns termos considerados de mais valia a fim de dar, a quem os pronuncia, o direito de ser o derradeiro a atirar a bola para a Búlica, na distância de cinco metros. Comumente, aquele que mantém essa preferível pretensão – a de jogar por último – deve pronunciar a palavra que a sua vivacidade mental ou treino lembre reclamar, gritando bem alto para que seja bem ouvido: “Último”. Mas, ao companheiro cabe direito igual e este lhe responde: “Marráio”. Quer dizer, o segundo, ao pronunciar “marráio” fica com o direito de jogar depois daquele que havia dito “último”.

        Entretanto, resta ainda um recurso, ou para o primeiro jogador ou para um terceiro, que consiste em dizer para os demais: “Cabide”. E, agora, é a este que fica o direito supremo de jogar em último lugar, depois dos dois anteriores, isto é, depois daqueles que pediram “último” e “marráio

        Marráio parece ser corruptela de “marralho”, do verbo “marralhar”, que significa insistir. Ou melhor, o jogador “marralha”, insiste em ser o último a jogar, em direção da Búlica. “Marralho”, ou “eu marralho”, dever-se-ia dizer. O termo Marráio é também vulgarizado em Barra Mansa, Estado do Rio.

        “Cabide” possivelmente seja deformação de “cabida”, no sentido de aceitação. O jogador pedir ao companheiro ou aos companheiros para ler “cabida” e solicitar que o deixem jogar depois do “último” e do “marráio”...

        O jogo realizado entre companheiros leais é feito com bolas de tamanhos e pesos iguais ou aproximados. Quando realizados por criaturas pouco leais, tem sempre bolas de tamanhos e pesos diferentes. Todavia, os pesos e os volumes nem sempre são produtos da má fé, dependendo, mesmo, das bolas que cada um possui como propriedade. A bola muito apreciada em Petrópolis é aquela feita do coroço do coco-de-catarro, o caroço da macaiba [“acocomia sclerocarp”, Mart.], também conhecida por macaúba, macajá e bocaiúva. A bola é pequena e leve. É mais difícil de ser atingida pela bola do adversário, por ser minúscula, e como é leve oferece facilidade para ser atirada à grande distância, isto é, favorece a técnica e os numerosos truques...Há uma espécie de bola de vidro, de tamanha médio, colorida e que muito agrada os jogadores: é a bola que possui três ou mais cores diferentes, formando desenhos diversos em forma ondulada. Essa bola, tão apreciada, tem é curioso nome de “Olho-de-boi”.