Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

VARIAÇÕES SOBRE O BOI

 

O Tempo – São Paulo, 14 de novembro de 1954.

 

        O boi é um dos animais que mais tem levado a sua contribuição ao folclore brasileiro. Aparece em algumas das nossas histórias e no populario musical, onde, aqui, a sua importância se coloca em relevante destaque. A fonte é farta, desde os alegres baiões do auto do Bumba-meu-boi, passando pelos romances, até as <penosas> elegias entoadas pelo vaqueiro, quando este sente ou sentia saudades do boi ao qual dedicou a sua afeição. Nesta cantoria reside o que mais de perto nos interessa, pelo que contém de humano e altamente dramático em certas ocasiões. Vamos por partes, porém.

        <Abôio> vem de <abôiar>, isto é, de reunir o gado, mantendo-o manso e ordenado. Por extensão, o termo abôio designa também a cantoria feita pelo vaqueiro ao conduzir a boiada de um para outro lugar, servindo, ainda, para embelezar o aboiar. Praticado em vários países, é abundante no Brasil e, segundo se pode deduzir, herdamo-lo de Portugal, onde subsiste no Minho. Entretanto, se em algumas das expressões mais vulgares do nosso abôio é notada a sua origem portuguesa, os seus traços melódicos já acusam profunda modificação processada no Brasil.

        Nas cidades para onde o progresso leva os costumes da vida moderna, não é comum se ouvir o abôio – embora possa ele ser observado, por exemplo, na Capital pernambucana, quando o tangirim [tangedor] caminha com o gado em direção do matadouro do bairro de Peixinhos. Limitado, este cântico, a sílaba <Ei>, possui melodia razoavelmente desenvolvida.

        Quando no trajeto, por qualquer circunstância, a boiada se assusta e tendo a se desconjuntar, diz-se que há engalhe, isto é encalhe, estorvo, embaraço. Alguns bois param, outros retrocedem. Para ordená-los, o tangirim encaminha os dispersos, procurando centralizá-los novamente sob a sua direção. Para isso, ele emite sons a uma certa altura escalar [mesmo não sendo intencional, essa altura], sem deixar de observar alguma unidade  rítmica ao pronunciá-las: <Ôda!...Ou!...> - sílabas que podem ser proferidas sem determinada ordem.

        O abôio – cântico também denominado grito, talvez por influência do Coco – contém em si apenas um pequeníssimo texto, muitas vezes repetido. Sirva de exemplo este recolhido em Pernambuco, onde é cantado em Vila Bela e que, diga-se de passagem, é parecido com tantos outros já publicados: <Ei-lá, meu boi!...>

        Nas fazendas localizadas no interior do Estado de Pernambuco o abôio não é limitado a algumas poucas sílabas, pois nele o vaqueiro [esclareça-se, o vaqueiro, não o tangirim] admite versos criados no momento de aboiar. Não desejando ou não podendo improvisá-los, o vaqueiro introduz quadras tradicionais, como em Portugal. Um vaqueiro ao cantar o abôio acima inseriu-lhe a seguinte quadra conhecida no Brasil, apenas acrescentando ao final expressão <meu boi>:

<Por detrás da serra

Passa boi, passa boiada,

Também passa a moreninha

Dos cabelos cacheado.

Meu boi!...>

        O abôio assim é comuníssimo na zona da mata e no agreste pernambucanos. Cada vaqueiro dessa região pode ter o seu próprio abôio ou, como não é raro, adotar um que conheça e de que goste.

        No alto sertão, porém se observam costumes diferentes. Mas para prosseguir, é imprescindível recordar o que assinala Luís da Câmara Cascudo ao descrever a imensidão das grandes fazendas. Escreve o estudioso que para as <apartações> se juntavam dezenas e dezenas de vaqueiros, os quais passavam semanas reunindo a gadaria esparsa pelas serras e tabuleiros. Acrescenta que o gado era criado em campos comuns, indivisos [<Vaqueiros e Cantadores>, p.72].

        Bem, nas grandes fazendas do alto do sertão pernambucano os abôios são tradicionais, apresentando a singularidade de serem uma espécie de marca sonora do território em que são cantados. Ou melhor, como o território, o abôio é uma curiosa <propriedade> do fazendeiro...Isto justamente porque não havendo cercado é necessário que a boiada atenda a um abôio certo a fim de que não se misture com a da fazenda alheia. Os bois dessas enormes fazendas, de léguas de extensão, vivem semanas e meses sem avistarem pessoa alguma e quando domesticados com um só abôio, se habituam a atender somente a este. Sucede muitas vezes o fazendeiro ser o proprietário de duas ou mais fazendas, necessitando, para o seu interesse econômico, fazer troca de gado entre fazendas do seu domínio. A permuta, então, se torna facilitada uma vez que o abôio dos seus diferentes vaqueiros é o mesmo, entoado numa e noutras propriedades. Certamente esse costume não é praticado em Estados como Sergipe, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, mas apenas naqueles cujas fronteiras se prolongam pelo interior do país, estendendo-se até o alto sertão – como Bahia, Pernambuco, Piauí, Maranhão e outros.

        O vaqueiro criado desde menino numa só fazenda acaba por dedicar um carinho especial ao gado que costuma conduzir. E entre os bois, geralmente é eleito um, ao qual o vaqueiro concede uma afeição quase fraternal, digamos assim, considerando-o como se fosse membro de sua família. No dia em que o fazendeiro escolhe esse boi para a matança, o vaqueiro come de sua carne, não dorme, passa semanas <agoniado> e chega a chorar. A sensibilidade de vaqueiro assim constrangido se opõe à daqueles que sentem sádico prazer em observar a consternação do <agoniado>.

        Se o boi foi mandado para o matadouro ou negociado com outro proprietário, o vaqueiro sente a mesma saudade. Nesse período de crise sentimental é que surgem, durante o aboiar, melopéias de caráter elegíaco e, ao mesmo tempo, de intensa dramaticidade. Recolhi um desses poemas:

 

<Êi, vendêro o boi criôlo,

O boi qu’eu estimava,

Que quando eu chamava o boi

O garoto não pastava.

Êi, meu boi! Ê, meu boizinho!

Êi, meu boi!

Vorta cá, meu boizinho!

Êi, meu boi!...>

        Cada vez que um vaqueiro precisa ser substituído, por morte deste ou por qualquer motivo, o substituto deve aprender a cantar o abôio característico da fazenda emitindo a mesmíssima interpretação que o antigo vaqueiro lhe imprimia. Comumente o novo responsável pelo mister já é outro vaqueiro da mesma fazenda, bem informado da maneira como era entoado o cântico. Mas se o novo vaqueiro não procurar ou não souber imitar o anterior, poderá estar sujeito à fúria da boiada, pois esta, estranhando o seu aboiar pode tomá-lo por algum intruso em seu caminho e as [vingadas] [?] serão dadas na primeira oportunidade.

        Essas informações me foram confirmadas por vaqueiros que conheci em Sanharó, Pernambuco, os quais haviam abandonado o alto sertão e se dirigiam para o litoral. Acrescentaram que isso se observa naquelas fazendas por onde não passam as estradas de rodagem mais movimentadas.

        O boi destinado a uma viagem por estrada de ferro pode padecer os maiores sofrimentos, porque os impulsos dados à maquina pelo condutor da composição, nas diversas saídas, podem ocasionar a quebra dos seus chifres, nos encontrões com os demais bois que viajam no mesmo vagão. Ou, o que é pior, pode o boi ter um ou ambos olhos vazados pelos chifres do boi mais próximo. Acontecimento sucedido constantemente, deu margem para que os vaqueiros criassem uma <praga> ou maldição, que é proferida quando não se quer bem à alguém: - <Deus permita que Fulano sofra como boi embarcado!>

        Escrevi antes sobre o boi que estranha o novo vaqueiro e péssimo cantor. Mas os bois reagem, também, contra um novo gado levado para pastar junto de si, no mesmo campo. Reagem não porque sejam ferozes, mas porque não querem que seus lugares, no curral, sejam tomados pelo recém-chegado. Lutam por isso. Lutando, porém, choram por terem que reagir dessa forma. Logo, porém se esquecem do combate e <não guardam ódio>, uma vez que notam a inexistência de concorrência.

        Outra coisa curiosa é o pressentimento de morte de que é possuído o boi, quando marcha por caminho estranho, conduzido de uma forma a que não está acostumado. A um quilômetro do matadouro sente o odor do sangue entranhado na terra quando, naturalmente, o matadouro não é cimentado. Certo do seu destino ele chora. Geme. Uma vez cercado, o tangerim não deve se aproximar dele, pois o boi, se sentindo <vítima>, não se furtará de investir contra o traidor.