Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

 

 

VARIAÇÕES SOBRE O MAXIXE

 

O Tempo – São Paulo, 26 de setembro de 1954.

 

        Não percebendo diferença entre o maxixe e o tango, Mario de Andrade concluiu por aceitar a validade de ambas as designações nas obras de Ernesto Nazaré e Marcelo Tupinambá, sem, entretanto, tentar algum esclarecimento que nos possibilitasse verificar a diversidade que instintivamente lhes era atribuída. Apenas valendo-se de uma ocasional e nada elucidativa informação do primeiro compositor acima citado, o saudoso autor de “Ensaio Sobre Música Brasileira” repetiu o que lhe dissera; os tangos “não são tão baixos”. Comentado, Mario, afirma que o próprio Nazaré mostrava repugnância ante a confusão com que os seus tangos eram chamados de maxixes. [Convém informar ao leitor que o tango aqui abordado não é o platino, mas uma forma de música popular brasileira, de dança, largamente executada pelos músicos do interior do Brasil.] O inesquecível mestre paulista, porém, parece acertar em cheio ao assentar o aparecimento do maxixe na década 1870-1880. Melhor do que ninguém, poderão confirmar isso os devidos documentos subsistentes.

        Os maxixes – como os nossos tangos – eram publicados em grande quantidade no Rio de Janeiro até os primeiros anos do século XX, isto é, quando as famílias burguesas ou aburguesadas ainda conservavam o bom costume de expor um piano na sala de visitas, pelo menos como móvel de adorno. Nessa mesma época em que se editavam muitas músicas “para piano”, que eram executadas no cinema mudo: valsas, quadrilhas, polcas, dobrados, etc.

        A versão publicada sobre a provável origem do maxixe – um sujeito chamado Maxixe teria alcançado grande sucesso ao interpretar os requebros da dança plebéia, sendo a dança depois apresentada num teatro carioca, de onde, se propagou – não me parece feliz [Divulgadíssima, a referida versão foi segundo se diz, Villa-Lobos quem a revelou...]. Entretanto, atribuir origem carioca ao maxixe, como também se tem propagado, é uma conclusão justíssima. E a meu ver, o processo de sua formação estilística se operou da seguinte maneira:

        Era no Rio de Janeiro que os antigos chorões encontravam o melhor campo para as suas serenatas. Agrupamento instrumental, popular por excelência, o choro se caracterizava também por aquela originalidade mestiça que o brasileiro introduziu na baixaria do violão [contracanto na parte grave do instrumento], desde a modinha até as polcas e, mais recentemente os choros [forma musical]. Essa baixaria, tão em voga naqueles românticos tempos, teria feito a sua incursão na música dos bailes públicos, os quais se chamavam maxixes – isto é, gafieiras em linguagem popular contemporânea. Os músicos das bandas – tantas vezes os mesmos dos bailes públicos – certamente levariam para as suas instrumentações – escritas ou improvisadas – esse processo urbano de contra-pontar. Colocariam, algumas vezes com relevância especial, essa baixaria nas introduções dos tangos, onde era salientada pelos instrumentos de tessitura grave. E o costume de empregá-la era tão apreciado que em certas ocasiões a melodia principal ficava colocada no registro grave, cabendo aos instrumentos restantes, dos registros médio e agudo, uma significação secundária por alguns momentos, na estrutura do trecho musical.

        Além da aplicação da baixaria de violão na música de trombone, bombardino, oficlide, tuba, etc..., ela teve lugar no “toque” característico dos pianeiros cariocas do tempo dos maxixes. Ernesto Nazaré soube extrair admirável proveito dessa genuína criação popular.

        Renato Almeida salienta que o violão é instrumento cujo ambiente é o meio urbano, embora possa ser encontrado no interior do país. Penso que no interior o violão é um instrumento pouco aceito, pois a gente daqueles lados parece preferir a viola, mais apropriada para acompanhar a sua cantoria, aliás, bem diversa dos cânticos urbanos. E por isso talvez, que o tango das localidades interioranas – pelo menos da Bahia para o Norte – não possuía e não possui a antiga baixaria do violão carioca. Ouvi muito tango executado pelas bandas-de-pife e pelos sanfoneiros. Em nenhuma ocasião, porém, me foi dado notá-la em suas interpretações. Mesmo ao examinar os tangos publicados no antigo Recife – cidade onde eram fartamente executados os sucessos dos autores cariocas – poucas vezes topei com ela. E o que é significativo, jamais encontrei música que no Nordeste fosse editada sob a designação de maxixe – embora o vocábulo indicasse lá, como no Rio, o baile público na gíria popular.

         Ernesto Nazaré e Sinhô, ambos [...]

        Em todos estes autores, e muitos outros não mencionados, a designação da forma musical, abordada aqui, era uma só: tango e às vezes no seu diminutivo, tanguinho – não obstante alguns compositores haverem denominados “maxixes” a algumas músicas do gênero. Há, certamente, o caso de obras que foram divulgadas com o misto designativo de “tango-maxixes”, como fez Chiquinha Gonzaga. Tal exceção parece vir confirmar a regra, pois ocorre indicar que a autora desejasse o seu tango executado amaxixadamente. Penso que os tangos, de certa época, foram denominados maxixes por autores para os quais o subtítulo deveria influir na indicação dos seus propósitos: na saliência exagerada, talvez, dos baixos. Outro indício que parece confirmar estas deduções é a exuberante baixaria obrigatoriamente enxertada por qualquer compositor popular ou popularesco da atualidade – ou orquestrador de rádio ou revista - ao pretender imitar a característica gostosura do maxixe, no intento de ridicularizar a sua forma, o seu estilo e caricaturar as gerações que o criaram, tudo numa ambiência burlescamente colocada além dos limites. [1]

        A estrutura do tango é singela – simples melodia acompanhada; a do maxixe é complexa – melodia contrapontada pela baixaria, passagens melódicas a guisa de contraponto ou variações e, em alguns casos, baixaria tomando importância capital. Ambos acusam procedência afro-européia através do ritmo polqueado em fusão com o do lundu, ao mesmo tempo que seu plano de construção é enquadrado na forma A-B-A-C-A – não obstante os tangos realmente populares, de autores anônimos, nem sempre serem construídos na forma exposta, mas reduzidos à A-B-A.

 

       Concluindo, a diferença entre o tango e o maxixe implica valores unicamente estilísticos e exige, para compreendê-la, que se situem os compositores em sua época e nos lugares em que viveram.

        Ouvida outrora na nossa música popular, mesmo na carnavalesca, a baixaria do violão foi, há dois anos, apreciada por mim no Rio de Janeiro [no Meyer], quando um boêmio acompanhava outro, este cantando sambas lentos e inéditos. Em franca decadência, vem sendo substituída pelas vulgares seqüências harmônico-impressionistas do “jazz” [?] comercial, num critério alarmantemente desconexado do caráter melódico daquelas poucas músicas que ainda poderiam ser agradáveis.

[1] Sem dúvida alguma encontraremos muita música editada no passado com o designativo de “maxixe” sem que apresente as particularidades que acabamos de referir.