Textos

 

 

Principais traços evolutivos da produção musical


Das obras - 1985


A provavel próxima decadência do frevo


A execução de pandeiro no Brasil


A influência africana da música do Brasil


A música e os passos no frevo


Artes e Artistas


Em termos de música paulista


Engano na apreciação de um ritmo brasileiro


Escalas musicais do folclore brasileiro


Índios de Petrópolis


Índios ou Cabôcos de Petrópolis


Notas sobre jogo de bola-de-gude


Variações sobre o boi

Variações sobre o Baião


Variações sobre o Maxixe


Zabumba

 

ZABUMBA

 

Uma orquestra típica nordestina

 

A Gazeta – São Paulo, 25 de outubro de 1958.

 

        O nome “zabumba” não indica apenas o bombo popular. Pelo menos no nordeste “Zabumba” é também uma orquestra típica daquela região cultural.

        A constituição da Zabumba varia segundo a zona e as circunstâncias de ordem material [aquisição de instrumentos]. Se em Alagoas, por exemplo, o conjunto tem normalmente três pífanos [flautas de bambu], e tambores, em Pernambuco o agrupamento é formado por dois pífanos, tarol [caixa] e zabumba [bombo]. E nas cidades maiores – exceção feita só Recife – os pratos, executados por um só músico, são instrumentos que não faltam. O agrupamento reúne comumente de quatro a seis músicos.

        A zabumba é orquestra indispensável nas festas populares, públicas ou particulares. É vista nas praças, executando nos coretos, na festa de casamento ou aniversário, etc., bem assim como participa das festividades religiosas oficiais, inclusive acompanhando novenas e procissões.

        Por isso, seu repertório é variadíssimo, composto de música tonal [segundo a conceituação clássica de tonalidade] e modal. Dentre as formas musicais que executa, vale mencionar algumas: Marcha, como a conhecemos no sul; Dobrado, idem; Dobrado-de-igreja, executado diante do templo católico do qual deverá sair a procissão; Marcha-caminheira, para “acompanhar santo” na procissão; Frevo, isto é, a marcha típica pernambucana; Tango, o Tango brasileiro, que no Rio de Janeiro tomou o nome de Maxixe, segundo deduções do pesquisador; Baião, em suas diversas modalidades; Abaianada, curiosa espécie de Baião e Tango; Martelo, variante da anterior; Valsa-sonora, isto é, lenta, sentimental; Novena, espécie de Marcha-fúnebre; etc., etc., tais como: Choro; Valsa; Polca; Quadrilha; Galope; Samba, em qualquer estilo – enfim. É possível que atualmente esteja até executando Bolero... certamente à sua maneira – o que viria vitalizar um pouco essa coisa, tirando-lhe o cosmopolitismo e morbidez característicos.

    Afora isso, a Zabumba ainda executa músicas especiais aos diversos momentos das Cavalhadas e, às vezes, acompanha a dança do Côco. Porém os números mais curiosos do seu vasto repertório são os Duetos, música de caráter descritivo, destinadas a serem ouvidas e não dançadas. É tradicional [...]. A onça e o cachorro, de espirituosos efeitos instrumentais. Mas os populares criam também peças musicais descrevendo histórias que inventam com personagens simbólicos, geralmente com o fito de satirizar ou fazer crítica social.

        Se a palavra Zabumba, é a mais generalizada para indicar a orquestra aqui tratada, outros designativos ocorrem na massa do povo. Ouvimos pronunciar os seguintes, uns mais outro menos, conforme os informantes: Tabocal, Terno, Terno-de-oréia, Pifeiros, Banda-de-pife, Matuá, Zabumbeiros, Esquenta-mulher, Quebra-resguardo e Carapeba. De Alagoas procedem os designativos Esquenta-mulher e Carapeba. A bibliografia registra as seguintes designações: Cabaçal [no Ceará e desconhecida por onde andei em Pernambuco]. Cutilada [Paraíba], Música-de-pife, Zabumba-de-couro, Música-cabaçal, Banda-cabaçal, Terno-de-zabumba e Terno-de-música.

        Como os pífanos da Zabumba são feitos de taquara, o som dos instrumentos é sempre suave, mesmo quando tocados fortemente. Por sua vez, os instrumentos de percussão se limitam à intensidade requerida. E dessa forma, a execução numa Zabumba é normalmente agradável, sem que com isso a interpretação perca a variedade de ruanças e o vigor rítmico característico da música popular.